Machu Picchu

Continuando na onda de postar uns textinhos bons que tenho escrito por aí, hoje resolvi reviver esse de uma viagem que fiz para o Peru em 2010, uma viagem que me transformou! Aí esta:

O raio de sol que mudou tudo

Estava escalando a montanha Machu Picchu, a menos valorizada das que rodeiam a antiga cidade Inca de mesmo nome. Eram cinco e pouco da manhã,  o céu ainda estava um roxo acinzentado e a neblina rodeava meus pés. Minha visão era invadida por degraus de pedra e vegetação farta. Com a música no volume mínimo, para não perder o som do vento, escutava a minha coleção de acordo com a vontade do meu único companheiro, o iPod. Quando me deparei com o primeiro raio de sol que cortava o ar úmido, levantei o olhar e lá, cobertas pela névoa, se esparramavam as ruinas do antigo império. Meus ouvidos absorviam a letra em melodia alegre “you should have seen that sunrise, with your own eyes… it brought me back to life.“* Meu coração palpitava, parte pelo esforço físico, parte pela emoção e nesse momento, tudo mudou.

Eu andava desiludida, cega para o brilho da vida. Frustrada profissionalmente e insatisfeita no coração. Comprei a passagem para o Peru apenas dois dias antes de desembarcar em Lima e logo que pisei na terra Andina, senti um alívio imediato. Desliguei o celular e segui rumo à aventura.

Minha chegada foi uma explosão de cores e sabores. Sem querer, tinha ido em uma das épocas mais felizes para o País, a Fiestas Pátrias, sua comemoração de independência. A alegria foi me contagiando – o vermelho e a música estavam sempre presentes. Quando cheguei em Cusco, já me sentia renovada.

A cidadezinha do Vale Sagrado dos Incas é rodeada de ruinas e recheada de atrações turísticas. Com sua arquitetura dançando em perfeita harmonia, a cidade que abriga o Templo do Sol invadiu minha alma com suas forças místicas. Em um dos passeios pelas ruínas da região, encontrei um pedregulho em meio a um campo gramado. Me acomodei e escrevi: “Deitei numa pedra e a superfície gelada contra minha pele absorveu os pecados, as dúvidas, as inseguranças… Aquele liso seduziu os meus demônios, os envolveu e os espantou. A mesma rocha que há séculos acomodou povos indígenas acolheu minhas mágoas e as transformou em uma cultura distante e esquecida.”

Com o coração mais leve, apontei o olhar em direção ao principal motivo da viagem, Machu Picchu. Havia pesquisado as atrações e decidi que escalaria a montanha ao sul da cidade, mais difícil, mas com a recompensa de uma vista de 3.000m de altura. Comecei ainda no escuro, com o objetivo de ver o tão sagrado sol Inca nascer sobre a cidade.

A trilha era puxada, mas eu mal percebia. De alguma forma, sabia que aquele era um dia especial.  Quando aquele primeiro raio de sol cortou a neblina e levou meus olhos à visão abaixo em perfeita sincronia com a letra da música, eu comecei a rir. Ria dos problemas que havia deixado para trás, das pessoas que haviam me magoado e das inseguranças que haviam me paralisado. Ria do dia-a-dia vazio que havia construído. Meu riso logo se transformou em uma gargalhada, em pulos de alegria e lágrimas de completa satisfação.

Então decidi, ali com a as pedras, a névoa e o raio de sol, que os dias que vieram antes das risadas seriam apenas as ruínas de uma vida passada que deixei para trás.

*3×5 do John Mayer, do disco Room for Squares

machu picchu

Escrevi esse texto para a Confeitaria, revista cheia de textos deliciosos de autores super talentosos. Vale conferir!

E aí, o que acharam? Vocês conhecem Machu Picchu?! Dê seu pitaco!